terça-feira, 21 de abril de 2009

Ser



Ser é viver

Sem ser convidado
Aparecer e observar
Olhar para os lados
para cima para baixo

Olhar pra dentro
pra fora
pro ceu
pro espaço

Pensar na vida
na morte
no eterno e no infinito
no tempo
no espaço

No antes do antes
no depois do depois
No aqui e agora
em tudo que ja fomos
em tudo que virá

Melhorar o que é
pra melhor ser
pois só assim se pode ser
um ser
olhar o tempo na cara

levar a morte no ombro
viver a vida sem medos
andar pelas florestas
subir as maiores montanhas
voar no azul do ceu
imergir nas profundezas do mar

Viver uma grande paixão
ter muito amor
e ainda que com muita dor
no meio de todo terror
gerar muitos frutos, físicos ou não
entregar-se ao mundo e penetrar a terra
amar tanto quanto for capaz
pois amar nunca é demais

Aí sim,
posso dizer que sou
sou um ser
estou aqui


domingo, 19 de abril de 2009

Fim do Mundo



Estou ainda indeciso..., parado; olhando pela janela do apartamento.

Vejo pessoas andando pelas ruas e calçadas em torno do prédio.


Para onde irão agora?


Estão assustados, apavorados.

A enorme nuvem cinza se espalhou por todo o céu.

Mal se vê o outro lado da rua.


Com as vidraças fechadas tento manter meu ar respirável. Não sei por quanto tempo aguentarei ficar aqui dentro. A geladeira já está vazia e só resta um pouco de água na garrafa. A água que sai pela torneira está suja e contaminada pela poeira.


O calor aqui dentro está se tornando insuportável.

Talvez a única possibilidade seja o subsolo.


As pessoas que estão lá fora não duram muito tempo. A maioria morre em poucos minutos. Os corpos se espalham pelas redondezas. Vão se misturando ao lixo que se acumula nas ruas desfiguradas.


Este deve ser o fim do mundo, pelo menos do nosso mundo, o dos humanos. As grandes erupções vulcânicas que tiveram início dois dias atrás lançaram toneladas de gases e cinzas na atmosfera.


O sol não se vê.

Os dias são quase tão escuros quanto às noites.


Minha família - minha esposa e meus quatro filhos - se perdeu quando tudo começou. Nos falamos há dois dias pelo telefone enquanto ela tentava chegar em casa após ter pego os meninos na escola. Ela estava apavorada, assim como todos nós, com o que acontecia à nossa volta. A bateria do celular acabou e fiquei sem saber como ou onde estão.


Não me resta outra saída que não seja o subsolo.


Pego algumas coisas que podem ser úteis, coloco a garrafa com água na mochila e saio do apartamento.


Nas escadas de serviço está tudo escuro.

Escuto vozes de pessoas em desespero.

Algumas estão chorando, outros enlouqueceram e não param de gritar.


Muitos se atiram pelas janelas e se espatifam nas calçadas já cheias de corpos.


Desço até a garagem.

Procuro pela tampa do esgoto.

Por já tê-la visto tantas vezes encontro-a facilmente no meio da escuridão. Levanto o alçapão e desço por uma escada na lateral do fosso. O cheiro é terrível. Sinto que estou entrando numa área líquida. Meus tênis chegam ao fundo. Estou com água pelos joelhos. A galeria subterrânea tem dois sentidos. Opto pelo da esquerda.


Vou seguindo solitário no meio do túnel negro, sentindo a água espessa e fria nas pernas, algumas coisas esbarram nelas, procuro manter o controle, respiro fundo, um fedor terrível, ando vagarosamente, tateando a frente e aos lados com muito cuidado para não bater com a cabeça em nenhum obstáculo. Quando encosto nas laterais úmidas, meus dedos percebem na superfície da parede substancias gelatinosas, lodos e lamas, insetos, baratas. Manter a calma, digo para mim mesmo, manter a calma.


Ratazanas disputam espaço comigo.

Ou talvez queiram me devorar.

São astuciosas, trabalham em bando.

Meto o facão em tudo que se mexe na escuridão fétida e molhada.



(continua em breve)



sábado, 18 de abril de 2009

O Dono do Casarão



Não sei explicar como fiquei assim. Tenho algumas hipóteses que não mencionarei, pois não desejo interferir em suas conclusões. Mas vou contar agora, enquanto lembro, como foi que aconteceu.

Moro neste velho casarão, há mais de sessenta anos, desde que nasci. Éramos uma grande família, os almoços de domingo sempre um alvoroço. Como era bom estarmos juntos; não tinha consciência disso na época: do quão era especial. Vovô e vovó, duas tias-avós, minha mãe e irmãos, minhas irmãs e eu. Morávamos na casa de meus avós, pois papai, militar, fora combater na 2ªguerra mundial. Quando nasci meus tios eram moços, convivemos por bom tempo, quantas festas... só mais tarde se foram, dois casados e o terceiro preso, estuprador. Tio Rodolfo. A primeira vítima revelada foi Lola, filha da empregada. Risaura, a mãe, ficou muito puta, mas o tio, mentindo até o fim, negou tudo, descarado, mesmo quando a menina chorando descreveu pra família como era seu pau duro, torto para o lado esquerdo, quase num ângulo de sessenta graus, no meio. Negaram-se a aceitar. Um erro. Ninguém pediu pra ver. No fundo já sabiam; a mulher foi embora furibunda, levando a filha deflorada pelo braço. Mesmo jovem pude sentir a gravidade da situação. Meu avô tentou levá-lo ao psicólogo, na época uma novidade, mas ele recusou dizendo que a moça o atiçara, que não era maluco, essas coisas de enrolador. Um ano e meio depois, ao abordar outra menina que voltava do colégio ao cair da tarde, foi preso. Encostou-a no muro de um terreno baldio, cheio de matagal. A moça gritou e, por sorte, um guarda que passava pelo local chegou a tempo prendendo tio Rodolfo em flagrante. Duas semanas depois do início da pena foi morto no vestiário do presídio; o legista relatou que fora penetrado várias vezes de forma brutal. Dizem que seu espírito obcecado por domínio sexual ronda o casarão. Nunca dei crédito às superstições. Um escândalo que deixou marcas. Meus avós sofreram muito.

As pessoas cochichavam: olha lá! A família do tarado...

Meu pai morreu na guerra, tinha um ano, só o conheço de retratos. Vovó teve Alzheimer após vovô morrer baleado. Pouco tempo depois suas irmãs foram encontradas duras, mortinhas da silva, no chão do banheiro. Velório duplo. Como eram bem idosas, e minha avó já estava doente, não foram muito choradas.

Mas vovô não, era resistente, pessoa ativa, por isso o choque de vovó, coitada, e da família. Certa manhã ele voltava da padaria, houve um tiroteio num botequim, dois homens brigavam e um deles, o marido, tirou uma faca de trás do balcão, o outro sacou um revolver e descarregou. O da faca, suposto corno, morreu com dois tiros no peito e caiu com a faca ainda na mão. O outro fugiu correndo, sumiu. Por ironia, o corno caiu sobre a faca, decepando o pênis. Uma bala perdida acertou a cabeça de Antero, vovô, que morreu instantaneamente e na calçada ficou; o sangue saindo da cabeça escorrendo até o meio-fio, descendo pela sarjeta e penetrando no bueiro; o saco de papel com os pães na mão sobre o cimento. Vovó ainda lúcida, desesperada, abraçava-se chorando ao morto; quando o pessoal da funerária chegou foi difícil removê-lo pro rabecão. Então ela murchou; que tristeza! Ficava só, no quarto, aí veio a doença. Melhor pra ela, parou de sofrer, morreu três anos depois, na cama. Mais alguns anos os tios casaram indo morar com as esposas; tenho seis primos. Moram em outras cidades. Quando nos reunimos são gerações, gerações e mais gerações... Deus! Como nos reproduzimos! Mamãe agora com quase noventa foi pro oriente, quarenta anos atrás na onda hippie, após a morte de vovó, e lá ficou; vive numa comunidade. Tenho três irmãs: Isabela, Carla Maria e Maria Inês. Outro bocado de anos duas irmãs casaram e mudaram-se. Inês ainda ficou um bom tempo, ajudando a cuidar do casarão, mas há quinze anos foi morar com Nancy, na casa desta. No momento está só, é dona de um comercio de autopeças, mora num quarto nos fundos da loja. Tenho três sobrinhos, todos de tia Carla, tia Isabela até hoje não teve filhos. De vez em quando vêem me visitar, é bom revê-las, lembrar histórias do passado. Entre tio Rodolfo ser assassinado e Inês mudar-se, trinta e seis anos se passaram, eu tinha então quarenta e cinco; quando vi, dezoito anos atrás, estava só.

No começo foi estranho, mas com o tempo acostumei, as coisas foram acontecendo aos poucos. Uma casa como esta, tão grande, só pra mim; exagero! No térreo tem sala de bom tamanho com dois ambientes ligados por uma porta à sacada com balaústres que dá pra rua. Ao lado, o lavabo, a sala de jantar e, na parte de trás, as dependências da cozinha e área de serviço. No andar superior são cinco quartos e dois banheiros no fundo do corredor. Para completar, o sótão. Neste ficam coisas antigas, tábuas, caibros, brinquedos enferrujados, bonecas quebradas, coisas que não servem pra nada além de acumular poeira e teias de aranha.

Como a casa tem espaço e de muito não preciso, há cerca de cinco anos, cansado de viver sozinho, a pensão mal cobrindo os gastos mensais, passei a alugar dois quartos a pessoas de família, contrato assinado, firma reconhecida. Com esta pequena renda somada à aposentadoria me mantenho. Assim, administro o imóvel, zelando pela conservação do casarão. Dedico o tempo livre a ler jornais e assistir futebol pela tevê. Um dos quartos está alugado a um moço, Aurélio, de quarenta e poucos anos, músico, toca violão, dá aulas particulares e faz uns shows aqui e ali, tem uma banda. Com o tempo nos tornamos amigos, em muitas noites foi boa companhia, contando casos e rolos com as mulheres que teve, shows e histórias da vida, ótimo papo. A outra inquilina, Marisa, entrou recentemente, cinco meses atrás no lugar de um engenheiro de empresa estatal. É mulher madura, faz trabalhos em cerâmica. Simpática, me atraiu logo que a vi. Aurélio, o músico, é fluido na conversa, bom pagador, tranquilo, não tem namorada fixa, está cada dia com uma. Mulherengo! Nunca fui assim. Tive relacionamentos, alguns até bem agradáveis duraram mais que a média. No entanto, não encontrei mulher que me interessasse ou suportasse o suficiente. Por isso nunca casei.

Com o tempo fui ficando solitário.

Mas isto foi até uma semana atrás, ao Marisa chegar embriagada sexta-feira à noite. Entretanto, a primeira vez que nos aproximamos foi um pouco antes, cerca de um mês, noite de terrível temporal. O barulho das trovoadas assustava! Ribombavam por toda casa. Encontrei-a aflita no corredor, perto da porta do quarto, mãos protegendo ouvidos. Não tenha medo, digo, me aproximando, ela tira rapidamente as mãos do rosto, envergonhada. Desculpe-me, diz, e noto um tremor no canto dos lábios. Logo um novo rugido ecoa pelo casarão. As paredes e os janelões de madeira parecem frágeis ante a violência da ventania. As luzes piscam várias vezes enquanto novas trovoadas preenchem o ambiente de horror. As iluminâncias dos relâmpagos, sombras fantasmagóricas, fazem com que nos acheguemos. Nos abraçamos enquanto raios e trovões repartem o céu negro da tempestade. Sinto então, surpreso, o calor do corpo, seios fartos, cheiro doce; tenho uma ereção. Pouco depois a tormenta diminui seguindo os ventos. Nós, no entanto, continuamos abraçados até que Aurélio aparece de repente nos surpreendendo naquele abraço apertado. Com licença, vou dar uma mijada, diz, piscando o olho pra mim, andando em direção ao fundo. Marisa se desvencilha de meus braços, embaraçada e, sem dizer palavra, entra no quarto e fecha a porta na minha cara.

Porem, o real motivo desta história não é Marisa nem seus seios de fêmea gostosa apertados no meu peito, nem sua bunda de melão, nem Aurélio e suas mijadas, namoradas ou aulas de violão. Não, não é de nada disso que se trata. O que me afetou não foi nem mesmo a barata que semana passada saiu do armário de mantimentos, grande marrom brilhante cascuda, ziguezagueando pra lá e pra cá, assustando; fazendo-me pular dum lado pro outro fugindo de seu caminho desnorteado. Não, não foi tampouco a barata do jovem Gregor Samsa, aliás, o jovem baratão. Mas foi algo do gênero dos insetos. Tentarei ser mais objetivo.

O primeiro sinal do que estava por vir surgiu no dia seguinte à sexta-feira passada em que Marisa chegou tarde, um tanto embriagada e, ao subir as escadas desequilibrou, soltou um berro, quase caiu. Saí correndo do quarto e segurei-a pelo braço a tempo de evitar a queda. Estava bem alta; agarrou-me e começou a beijar com gosto de vinho misturado a frutos do mar, mas que importa? Mergulhei de cabeça naquelas águas quentes. Fomos pro quarto o que foi de vovó e depois do engenheiro nos largamos na cama e nos amamos loucamente. Vi-me apaixonado. Foram muitas trepadas intercaladas com lanches e banhos; ao final da manhã seguinte estávamos extenuados. Um ar de torpor nos invadiu, não nos mexíamos. Exaustos, depois de tanta sacanagem, deitados de barriga pra cima olhando o teto. Era sábado por volta do meio-dia.

Foi então que vi.

No canto esquerdo do teto alto, entre a corrente do lustre e a janela. Apoiada numa fresta entre as tábuas do forro, uma vasta teia de aranha, rosa com manchas pretas; contendo saquinhos de insetos mumificados envoltos em finíssimos e resistentes fios, sua despensa. O que me causou mais espanto é que a casa é faxinada toda semana, por duas mulheres às quintas-feiras, trazem material apropriado, vassouras de cabos encaixáveis que ficam compridas; além de faxinar tudo, vidraças, quartos e dependências, limpam os forros. Final da manhã de sábado...tempo curto, reflito, para uma teia deste tamanho...? Hum... Muito estranho...

Marisa dorme com o corpo descoberto, as nádegas deixam ver os contornos da vagina cabeluda. Se não estivesse exausto dava outra. A visão é por demais bela. O pau roxo de tanto esfregar ameaça crescer, mas a dor na virilha é forte, dói o abdômen. Desperta, olha-me e sorri. Pergunto sobre a aranha. Diz brincando: é de estimação, se chama Shirley. Como?! pergunto. Ora, qual é o assombro? Você gosta de ler jornais e ver jogos dia e noite, gosto da aranha, e daí? ela come insetos e mosquitos, me faz um grande favor.

Mal começamos a relação e já está botando as manguinhas de fora! espaçosa... É..., digo, olhando as belas pernas, realmente não tem nada demais. Eu, hem! Onde já se viu? Que mulher doida. Shirley!?

Dois dias depois, desfrutando da intimidade adquirida, usando como pretexto um jornal, entro no quarto dela mostrando uma reportagem que diz: “excesso de álcool faz a bunda diminuir”; ao ouvir isto ela solta uma gargalhada e exclama: Que babaquice! Fico puto com a risada de deboche e então, ao levantar o rosto num gesto de contrariedade, tipo olhando pro céu sacudindo a cabeça, não acredito no que vejo! A teia está três vezes maior!, quase metade do lado esquerdo do forro! Que merda é essa! grito. Calma! ela responde, Shirley teve filhotes à noite e precisa de espaço, é só isso; homens!, não entendem nada de maternidade! Tento argumentar que é feio, perigoso, mas uma levantada de saia intencional, a visão da boceta cabeluda a pouco mais de um metro é muito forte, esqueço o que falava e parto pra cima. Saio de lá no meio da noite, tudo escuro, a presença das aranhas ali em cima incomodando, vou dormir no meu quarto.

Ao amanhecer do dia subo até o sótão para buscar uma haste pra juntar à vassoura decidido a retirar as teias do quarto dela. Não esperarei até quinta feira, dia das moças da faxina; pressinto que há algo estranho com estas aranhas, não vou facilitar. Afinal, sou proprietário do imóvel; devo zelar pelo bom estado do mesmo. Ela que me desculpe, a teia vai sumir! Que arrume outro bichinho de estimação, e de pelúcia, porque se tem coisa que me deixa puto é animal dentro de casa. Aquela catinga no ar! Eca!

A velha porta tem um gancho de metal no lugar da maçaneta. Fica no centro do corredor, para acessá-la só com a escada guardada atrás da porta, num dos banheiros. Ao abrir, só escuridão no interior. Como já fizera tantas vezes quando criança engatinho pelo meio das velharias guardadas, encostadas às paredes laterais pra deixar a passagem livre até a janelinha. Faz tempo que não subo aqui. A lâmpada do teto há anos se quebrou e, por esquecimento, nunca foi trocada. Ao penetrar no recinto sombrio um frio corre meu corpo. Quantas vezes na infância subi aqui para brincar, me esconder, revirar as coisas com curiosidade? As primeiras masturbadas, sonhando com os peitinhos em flor de Lola a filha da empregada que o tio finado pegou. Quase sessenta anos depois cá estou, no aposento largo, profundo, de baixa altura, um metro e setenta, se tanto. Engatinho para abrir a janela no outro extremo, pois sei que em alguns pontos coisas compridas trespassam o caminho; é perigoso andar sem ver nada nesta escuridão abafada, cheirando a mofo e poeira. Assim que entro, sinto algo pegajoso se prendendo no rosto e no braço. Com a mão puxo pro lado a matéria fina e grudenta. Sinto mais medo que quando menino. Isto nunca acontecera! Mais adentro e nova cortina de teias gruda em partes do corpo. Argh! Que nojo! A coisa cola na face e nos braços, um volume incrivelmente espesso. Já meio desesperado, afobado, engatinho acelerado, corro até a janelinha. Muitas teias se emaranham em mim. Finalmente alcanço a janela e abro. Que susto terrível! Verifico que o local parcialmente iluminado está tomado por teias. Tenho pavor de aranhas! Suo frio. Mal se vê o que lá está, é um entrelaçado de fios, paredes de teias. Enfio a mão nelas e pego um pedaço de um velho cavalo de pau, brinquedo antigo, e com ele abro caminho entre a cortina de teias. Consigo destruir boa parte delas. Saio dali o mais rápido possível, quase em pânico e desço correndo a escada. No banheiro, ao olhar no espelho noto horrorizado a quantidade de teias e aranhazinhas grudadas ao redor dos olhos, cabelos e pescoço. Tiro-as com a mão e jogo na privada dando a descarga; satisfeito ao vê-las sumir no fundo da latrina. Entro debaixo do chuveiro e abro a torneira ao máximo. Pelo corpo descem teias e insetinhos nojentos, róseos com manchinhas pretas, balançando as perninhas, levados pela água quente que escorre pelo ralo. Só então, já mais calmo, pego o sabonete e esfrego no corpo, lavo bem o rosto, nuca, cabelos e braços. Uau!

Que porra de susto fodido!

Relaxo inspirando o ar e solto todo o nervosismo acumulado. Levanto o rosto pra lavar o pescoço e sinto um calafrio passando pela espinha, pois avisto no canto do forro do banheiro outra grande teia! com três aranhas enormes. Jogo água nelas! com força, mas o forro é muito alto; destruo parcialmente suas armadilhas. Enfurecidas, elas sobem e descem em velocidade refazendo as teias. Enxugo-me correndo, me visto e saio. Penso nervoso: ”Preciso acabar com essa praga! As moças da limpeza não estão vendo isso!?”

Corro até o quarto de Marisa para falar sobre o ocorrido no sótão e no banheiro, mas ao entrar fico ainda mais chocado! Apavorado! Estupefato! Quase não a vejo! Com dificuldade percebo que está nua, deitada na cama e, sobre seu corpo, dezenas de aranhas tecem teias, encasulando-a. Meu coração bate tanto que quase salta fora do peito! Entre a porta do quarto e a cama muitas teias formam uma camada espessa, cheia delas se movendo pelos fios com incrível agilidade, me impedindo de alcançá-la. Ela, por detrás das teias parece alheia a tudo, pois dorme ou está sedada, não reage. Quase entro em pânico outra vez, não sei o que fazer! A sensação de impotência é terrível! Preciso buscar socorro, sozinho não consigo. Aurélio sempre acorda tarde, decerto está dormindo, me ajudará! Preciso salvá-la! Corro ao quarto dele, exasperado!, na esperança de obter sua ajuda, mas qual o quê! O músico também está desacordado, mas com uma pequena diferença: sentado. Aranhas tecem ao seu redor uma teia justa e densa. Parecem centenas de trabalhadores terminando uma grande obra, às pressas, ao ponto de, nestes pouco instantes vê-las perplexo terminar o encasulamento e içá-lo para o alto. Em poucos minutos lá está ele, inconsciente, pendurado, encapsulado.

Percebendo a gravidade da situação cogito em correr até o quintal e pegar uma enxada ou tesourão para arrebentar as teias malditas. Mas quando me aproximo da escada, o coração, pobrezinho, por pouco não para e caio fulminado num enfarte! Que visão medonha! Por toda escada e a sua volta centenas, talvez milhares de aranhas, algumas enormes, do tamanho de uma caranguejeira, tecem teias fechando completamente a passagem! Corro para o meu quarto, lá tenho revolver no armário, telefone. Noto, ao correr, que no corredor já surgiram dezenas de teias grandes e longas, cheias de aranhas que rapidamente tomam conta do local. É um assombro! Tento ainda raciocinar, quase histérico: pego o telefone na cabeceira e ligo pra defesa civil! Isso! Alcanço a porta do aposento, arrastando comigo fios de teia e algumas aranhas. Passo a mão pelo corpo num gesto irritado. No quarto, porem, a situação é ainda pior!: não vê-se cama nem armário, só aranhas, milhares, tudo cheio de teias ao redor! Sinto por um momento que vou desmaiar; mas não!, busco forças não sei de onde, reajo! Não me entrego! Sem alternativa, com todas passagens bloqueadas, ataco! Lanço-me como louco em cima do manto grosso cinzento e pegajoso que a tudo cobre, me debato irado com elas, desesperado, mas quanto mais luto mais me emaranho; até que sinto uma picada no pescoço, tento levantar o braço e a mão, mas estes já não se mexem. O veneno logo me entorpece, os olhos se fecham, deixo-me cair. No entanto, não caio. As teias são fortes, mantêm a carcaça erguida. Estranho..., percebo, estou numa espécie de transe, mas continuo pensando e sentindo o corpo, é a ação do veneno, concluo. Mais alguns minutos e também sou içado, encasulado. Preso, pendurado no forro alto.

Acho que alguns dias se passaram; ou foram horas? Incrível como ouço e sinto, mas não me movo. Que horror! Escuto um vozear no térreo: manhã de quinta-feira, as moças da faxina! Falam coisas alarmadas. Ouço quando gritam: ”Doutor! Doutor!” Torço pra que venham me salvar!, que chamem os bombeiros! Sei lá! Qualquer coisa... tento gritar, mas não, não abro a boca. Quero, mas não consigo. O veneno tem este poder. Chamam por Marisa e Aurélio que tampouco respondem. Ouço a porta bater e sei que saíram. Com certeza apavoradas ante a visão da sala infestada de aranhas; devem ter achado que era coisa de assombração e não voltaram com os bombeiros, pelo menos até agora. Será que chegarão a tempo?!, se é que virão...

Posso sentir pelas vibrações quando as aranhas maiores, que comandam o batalhão, se aproximam de mim. No que imagino ser o dia seguinte, sinto o cheiro de Marisa nas patas de uma delas que me observa de perto; embora de olhos fechados, posso senti-la me olhando com seus oito olhinhos brilhantes. Apreciando o futuro prato. As quelíceras cheiram a sangue misturado ao odor da mulher que amei três dias atrás, provavelmente a última. Isso me faz sentir um começo de ereção. Mas o terror da situação é apavorante e logo a sensação de prazer esvaece. Não sei quando, exatamente, irão me devorar, conjeturo; sinto que o tempo está passando e comigo nada. Acho que estão me guardando, não sei pra quê.

Sinto uma calma incoerente. Como raciocino neste estado? Só posso atribuir ao efeito do veneno.

Sou como as coisas velhas no sótão? Não!, estou na despensa. Isso! Elas me guardam pra comer, se alimentarão de mim. Sei disto porque comecei a entender o que os artrópodes falam. Estão comendo Aurélio, só lhe devoraram dois terços, portanto, sobra ainda a cabeça e parte do tronco; ossos elas não comem. Estará consciente também? O resto foi ingerido pelas hostes de aranhas esfomeadas que, aos milhares, tomaram conta do casarão. De Marisa nem isso, nada lhe sobrou. Só o esqueleto seco, encasulado.

Estão esperando; por algum motivo sou o último. Uma deferência por ser o ex-dono do casarão? Talvez sejam estes meus últimos pensamentos. Já me comeram alguma parte? Digo isso porque horas atrás, ao lembrar de Marisa, quis sentir algo e nada, nada senti.

Ouço-as falando, estão gemendo!, fodendo e gritando de prazer, copulando sem parar!; são muitas, um bacanal! Deus! Como são promíscuos estes seres!

Serão as vibrações do finado tio Rodolfo?

Quando enfim pararem com a sacanagem, exauridas e famintas, será que virão a mim?

Terminar a refeição, as novas donas do casarão?



terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Ensaio sobre a Personalidade das Letras – O Literatófilo



Certo como dois e dois são vinte e dois, os mais intuitivos e perspicazes já perceberam que as palavras são formadas por letras; estes símbolos que, combinados ou separadamente, representam os diversos fonemas da nossa linguagem oral. O que, provavelmente, a maioria não sabe é que cada letra tem sua própria identidade. O F por exemplo, é uma letra tímida, introspectiva, é como se fosse o espalhafatoso E, mas sem a sua base, a segurança, sem aquele estrelismo todo do E; que é tão ousado e usado: É. Espantoso! Espetacular! Especial.

É isso..., É aquilo..., a toda hora tropeçamos num E; é ou não é? Já o pobre F, seria um...fffudeu!

Feio!

Fedorento!

Fracote! Fru-fru! faliu. faleceu. Às vezes um simples: fff... já denota que algo babou ou está por melar.

Já o exibido E está em todas as bocas. Se perguntarmos algo a um jovem de hoje, ele te olha com aquele olhar tipo quem vê um E.T. em plena praça ao meio-dia, e responde sem se mover: Éeeee...isso aí..., e fica-se com aquela impressão, mesmo uma certeza, de que tudo já foi dito.

Assombroso!


Agora, sinceramente, se tem uma letra que tem de tudo um pouco é o O. Oh! Isso mesmo, ele é redondo, oval, circular, anelar, é ótimo!

Circunférico!

A bola!

O planeta é esférico como ele!

Oh!

O verdadeiro O do bobó!

Como é chique esse O!

Se lhe provocam ou espicaçam ele responde com o conhecido e ultra famoso bordão: Aqui Ó! Que significa que tão mandando você, ou alguém próximo, enfiar o dedo médio ou algo roliço e comprido, enfim, cada qual com seu gosto, no fiofó. Super usado hoje em dia, nestes tempos de correria, crise e confusão. É: aqui Ó! pra tudo que é lado.

E também é muito cobiçado, cobiçadíssimo! Principalmente à direita dos algarismos, quando ele assume sua identidade secreta, numérica! Até isso ele tem! À semelhança do Super-homem que, com um simples óculos transforma-se no irreconhecível Clark Kent, ele, o O, se estica um pouco e pronto!, com uma simples alongada transforma-se no incrível número Zero: 0. Quanto mais haja à direita de qualquer número, mais alegria ou dor ele provoca! Mas, cá entre nós: sózinho não vale porra nenhuma...., fica te olhando com aquela cara redonda,,,. aquela auréola de santo... É como se diz, melhor mal acompanhado do que só. Dizem, não dizem? Ó!

É fabuloso esse O.

Sobre sua vida, inclusive evidentemente, fizeram um filme, muito famoso, óoobvio, A História do O. Ele reclama, a boca pequena (o), e diz ter sido traído pelo roteirista que inventou várias cenas de sexo fora do contexto só pra chamar atenção! Como se o próprio O já não fosse sexy e chamativo o bastante por si só.

Tem letra mais sexy que o O?

Em São Paulo tem até um fã clube, são seus fãs e fregueses, todos moradores da Freguesia do O.

O O é macho. Está escrito em sua biografia: artigo definido (de personalidade marcante, firme) masculino, singular. Não é pra qualquer um!


Mudando da água pro vinho vamos tecer algumas considerações sobre alguém que seja representante das minorias, dos excluídos, sim, estou me referindo ao condoído caso do U, coitado, sempre com esse sorriso de quem quer agradar. Pobrezinho, parece que está de pernas pro ar! Uuui! Essa doeuuu.

Não gostaram? Então vaia pra ele: uuuuuuu...

Como é carente o desgraçado do U, rima com: vai tomar no .. !, ou pior (ou melhor, dependendo do gosto de cada um): vai chupar um ... ! Seu urubu! Triste sina, a do U, sempre a última das vogais..., se esforça tanto pra não ser o último que acaba ficando com essa língua toda de fora, pobre U... uauuuuu...


Pra não dizer que falo demasiadamente das vogais vamos analisar uma consoante de quem pouco conhecemos o verdadeiro significado: o X.

Ele mesmo.

Sempre uma incógnita. Ignoto.

Se uma encrenca se aproxima todos querem saber qual vai ser o X da questão. E se uma contenda se arma então ele, que está sempre escondido atrás de sua aparente encruzilhada, se intromete no meio e fica aquela história de fulano X beltrano, time isso X time aquilo. Grande encrenqueiro, isso sim!

Como temos pouquíssimas palavras que comecem com X ele tratou de se associar à matemática, e não é só nas equações, não!

Ele conseguiu exclusividade e é o sinal da multiplicação! Múltiplos e multiplicados, em todas máquinas de cálculo o safado aparece, roubando a cena.

E já que falamos em safadeza, por trás dessa fachada armada e obscura das incógnitas se esconde um pilantra! ele é também super safado. Os filmes mais picantes tem XXX. Ele com certeza não é mole! dizem as más línguas que ele tem relações (de alta potência!) com o Y e o Z,. xiiiii.....


Fechando este projeto de esboço de rascunho de ensaio de um estudo (que um dia será digno deste nome, e não este rebôco metafórico/sintático) sobre as letras e suas interessantes peculiaridades, tomemos o B. Vejam bem, queridos, tomar no sentido de observar especificamente. O B é bom. Tem mil e duas utilidades. O B é quase ótimo. Mas como se sabe, o ótimo é inimigo do bom, por isso não os convidem para a mesma mesa, eles podem sair em caixa alta, cair pra caixa baixa, trocar acentos, nunca se sabe, melhor não arriscar.

A característica, no entanto, que torna o B digno de nossa maior atenção, evidentemente é seu aspecto físico/anatômico. Não entendeu? Tudo bem, docinho, explico melhor. Reparem nas formas do B. Notaram agora? É uma bunda vista de cima, de lado ou de baixo, não importa; pois quando o assunto é preferência nacional, não tem pra ninguém: é Bunda! E se uma bunda não te satisfaz, pegue uma banda, que com certeza é cheia de bundas, que, aliás, tem duas bandas.


Cara! Essa foi f...!de doer! argh!


Outro dia falo do I iiiii...


domingo, 25 de janeiro de 2009

O Velho da Perna Fosforescente 2


obs: comece a leitura pelo capítulo anterior, o 1.

Levanto e caminho na direção das árvores do parque, pensando na pirua e seu pé desnudo com as unhas pintadas de sangue seco. Me aproximo de uma árvore grande, abro a braguilha e urino nas plantas em volta das raízes que se projetam do tronco grosso e marrom escuro da árvore. Estou pensativo, que é o mesmo que um oceano de águas transparentes e calmas, que se perde nas profundezas e volta como lulas gigantes atrás de peixes para o almoço.

Divago sobre a vida. Vida dura de policial. Estou neste caso do Velho há tres meses. Até agora só tenho pistas vagas, que se parecem à uma campina turva de mata esguia balançando-se ao vento. Quando penso que estou próximo o vulto se desfaz entre a multidão que, aos borbotões, passa em sentidos opostos pela minha frente.
Estou sentado na calçada junto a outros moradores de rua. Fui bem alimentado à noite pela ong das senhoras simpáticas.

Certa noite, enquanto dormia um pouco, entre a ong do cobertor e a das quentinhas, acordei com o ruído claro de gemidos de prazer. O amor de uma das voluntárias extrapolou o limite da caridade espiritual e alimentar, penetrando no reino dos sentidos físicos, os ditos carnais. Pelo que se ouviu foram varias vezes.

***

Ontem pela manhã um garoto surgiu e disse: "Sei onde está o velho que você procura." Meu coração disparou e senti meu corpo se alongando e o ceu escurecendo com pesadas nuvens de chuva que se aproximavam. Leve-me até ele, disse ao garoto. "Só se molhar a mão, doutô." Moleque com olhar destemido com boca grande beiçuda, sobrancelhas duras. Toma, vermezinho imprestável, resmunguei e dei o dinheiro ao garoto.

Subimos a Rio Claro, descemos a Lemam e dobramos na Corrientes, descemos a Ataualpa e adentramos pelo Morro do Pastel.


Eu sabia! O Morro do Pastel!

Por razões desconhecidas enquanto comia pastel na tarde do dia anterior, o reflexo efêmero do sol na borda limpíssima de um veículo imponente, preto, brilhante fez gemer o espírito audaz que dorme no interior de reconditos escuros da alma, qual potros galopando na ravina verdejante. Através dele vi um vulto, com um volume às costas, mancando com a perna direita. Com a direita? Ah! Claro! a direita é a esquerda, porra! evidente! cérebro atento! imagem refletida.

Naquele momento tive a intuição: num relance um flash veio-me à mente, e vizualizei o Velho no Morro do Pastel, pois eu comia um de queijo, maravilhoso, de dar água na boca.

O menino de short descalço camiseta do candidato a prefeito apontou uma casa trezentos metros adiante. "É aquela." ... continua

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Autoconhecimento


Procuro por mim mesmo.

Onde me encontro?

percorro todos shoppings,

em nenhum deles estou,

vou à todas igrejas,

lá não me acho.


Percorro feiras,

livres ou cobertas,

de todo tipo de coisas,

vou a todos mercados,

procuro no google,

pesquiso na internet.


Tão pouco quero,

e tampouco encontro.


Coisa simples,

nada demais,

mas nem desse pouco,

me sinto capaz.


Quem sou?

É muito, querer me conhecer?

Saber quem sou.


Estive em muitos lugares,

milhares de livros li.

cruzei oceanos,

morri,

renasci.

No entanto,

em nenhum desses momentos

me conheci.


Andei a torto e à direita,

à esquerda também,

já olhei em cada greta,

subi acima das nuvens,

mas nunca me vi como alguém.


Alguém capaz de exprimir tudo que sente,

de dizer tudo que não sabe,

de fazer tudo que quer,

de ser meu próprio rei,

não sendo uma coisa qualquer.

De ser somente eu.


Alguém assim, eu sei,

é difícil encontrar,

mas mesmo sabendo disso

não desisto.


Me busco nas florestas mais densas,

no fundo dos oceanos,

no interior da terra,

nos confins do universo.


Já entrei em buracos negros,

e deles nunca mais saí,

mas mesmo não saindo,

agora não estou mais ali.


Será isso então?

Só existo na minha imaginação?


Quando parar de pensar desaparecerei.

Nunca terei existido,

jamais me reencontrarei.

Talvez seja achado na calçada,

de uma esquina movimentada

dentro de um saco de papel,

e então encaminhado,

entregue na seção de achados e perdidos

de um supermercado.


Ali estou?

Talvez ali.


Pode ser, no entanto,

que não seja este meu destino,

posso ir pro depósito de lixo.

Lixo atômico.

Altamente mortífero.

Por séculos ainda estarei

poluindo o solo, água e ar.

Lixo radioativo.

Mata todo ser vivo.


Serei eu ali?

Pergunto a mim mesmo,

sujeito que nunca vi.



quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

O Segredo da Serpente


Uma fábula transgressora


Oi gente, sou a serpente. Isso mesmo, a serpente, aquela do paraíso. O paraíso é muito lindo! Como é bom viver aqui, eternamente. Não sentimos fome, nem frio, nem sede. Tudo aqui é perfeitamente perfeito.

Somos uma grande família, todos vivemos juntos, os outros seres e eu, é, isso mesmo, aqui está repleto de seres. Não tem sol nem lua, nem nuvens nem vento, aqui é o paraíso, onde tudo é divino. Na verdade eu não devia, mas vou lhes revelar um segredo.

Mas prestem bem atenção!

Caso não queiram escutá-lo,

parem agora mesmo!

Ou será tarde demais...

Em primeiro lugar está o todo-poderoso, foi tudo idéia dele, digo, a criação de tudo, do Universo. Ele manda, e é bom obedecer. Mas vocês querem mesmo saber? Algumas coisas são assim, como eu poderia dizer..., um pouco diferentes. Os seres, embora pareçam iguais em termos de inteligência, na verdade não são. Não contem isso para ninguém, ou nem sei o que poderia acontecer comigo, deus me livre!

Vivemos todos em perfeita harmonia. Leões e zebras dormem lado a lado; águias e ratos conversam animadamente; até os peixes aparecem para brincar e saber das novidades, que por aqui também há. Porem existe um ser estranho (ser humano), que vive muito só, anda desanimado, parece desassossegado, talvez por não estar acompanhado.

Ontem à noite, enquanto todos dormiam, presenciei um ato de puro amor. Nosso chefe, o todo-poderoso, ficou dele apiedado e dois anjos enviou, muito habilidosos, que lhe retiraram uma costela e dela fizeram seu par!

Adão (este é o nome do tal ser) então acordou, e não podia acreditar! Ali, bem a seu lado, uma mulher dormia! Ela também acordou assustada, mas logo os tranqüilizei, e lhes expliquei o fato ocorrido. Eva é seu nome, e, devo admitir, uma beleza de fêmea!

Porém, algum tempo depois, um dia ou dois, escutei um assobio. Rastejei até o muro, e, do lado de fora o anjo caído me chamava, é, aquele mesmo, com fama de mau; ele então jogou um bilhete com algumas instruções:

– Cara serpente, faça um favor, leve Eva até a árvore e lhe dê uma maçã.

Só isso?

– Porquê?

Perguntei curiosa.

Ele então me revelou baixinho, para que mais ninguém escutasse, que era o fruto proibido!

Ah! pensei, será tão bom assim?

Mas era pedido de anjo, e não podia recusar. Só que, como boa serpente, rastejei novamente e na árvore subi. Tão curiosa fiquei que a maçã eu mesma comi. E então...

Meu deus! Que poder!

Repentinamente pude tudo entender!

Fiquei sapientíssima!

Corri então até o Olimpo, que fica aqui ao lado, chamei a deusa Fama e cochichei ao ouvido: – A mulher de Adão, Eva, comeu a maçã!

Logo, de seu palácio de mil janelas, mil bocas saíram, e, de ouvido em ouvido, ela espalhou o ocorrido.

Num instante a notícia correu por todo o paraíso, e o Criador, ao saber de tal desobediência, não pensou duas vezes, e, sem nenhuma dúvida, os expulsou do paraíso! Foram então os dois lançados num planeta distante, pequeno e desabitado. Lá se estabeleceram e passaram a viver, o que significa que um dia irão morrer; por causa do meu pecado.

Muito amor fizeram sob o céu de estrelas brilhantes e, nas noites de lua cheia dormiam bem abraçados. Nasceram muitos filhos daquele casal apaixonado, tantos que, depois de alguns milênios, o mundinho ficou superlotado.


A história deles continua, mas sinceramente, com tudo que vejo daqui, eles estão indo mal, muito mal. Estão se aniquilando, e a todos os animais, peixes e vegetais. Como são estúpidos estes seres! Bem fez o chefe em despachá-los daqui, pois até hoje os homens não conseguiram entender que, para sobreviver, precisam se unir.


Não digam a ninguém o que lhes contei,

este é nosso segredo, a outros nunca revelei.